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Que fazer quando tudo arde?

Carlos Lopes, 59 ano, advogado. Candidato à presidência da Câmara Municipal de Tavira

Ser-me-ia mais cómodo aguardar com queirosiana ironia o devir do discurso pronóstico, maninelo e vazio que nos espera. Tanto mais que, no Outono da vida, não penso que se deva assacar ou conferir ambições de carreira politiqueira a quem dela esteve arredado há quase 40 anos e sempre se recusou assumir posições de relevo, apesar de lhe terem estado muito perto e de lhe terem sido oferecidas. A distância e o não comprometimento ser-me-iam mais fácil, uma vez que não fazem correr riscos e dão-nos o conforto de não cometer desacertos. O erro é próprio da ação, filho da prática, apesar de, como diz Kundera, nada haja mais prático do que a teoria.

Há contudo momentos em que nos temos de decidir e não podemos ficar indiferentes perante o mar de chamas que faz desaparecer tudo em que acreditámos, por que almejámos e torcemos ao longo da vida. Considero, como os gregos antigos, que a atividade política é a mais nobre das atividades a que o homem se pode dedicar. E há valores sociais, éticos e políticos a que sempre dei primazia.

É tempo de não temer lutar por alguns valores em que acredito. A honra, a palavra, o respeito pela diferença, o acreditar no outro, o empenho na defesa dos mais desfavorecidos, os princípios éticos, o empenho desinteressado no bem comum, a esperança. É vago? Será, mas é muito!

Parafraseando Borges, As ruas de Tavira/estão já dentro de mim. Deixá-las arder sem nada fazer é uma cobardia a que não me quero ver associado.

Se me virem na rua a pedir o v. voto, creiam que não o faço por sacrifício, mas com a alegria e a convicção de que estou a cumprir um imperativo de consciência. Como dizia o poeta, não sou nada, nunca serei nada, à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.