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As consequências da política externa da Administração Bush na tela cinematográfica

 

O que têm de comum os documentários “My country, my country” e “Táxi to the dark side”? Para além de estarem inseridos na programação do “doclisboa 2007” (festival internacional de cinema documental) ambos pretendem “abrir os olhos” ao mundo quanto à política praticada pela Administração Bush.

Laura Poitras, a realizadora do “My country, my country”, deslocou-se ao Iraque e aí permaneceu cerca de oito meses que antecederam as primeiras eleições depois de Sadam Hussein ser afastado. Se por um lado a realizadora pretende mostrar como se encontra a democracia Iraquiana por outro, abre-nos o caminho para questionarmos sobre a pertinência da política exterior americana.

Embora este filme tenha recebido a merecida nomeação para o Óscar de melhor documentário de 2007, infelizmente ficou pela nomeação. Curiosamente, Laura Poitras actualmente encontra sérias dificuldades em viajar de avião, pois é frequentemente revistada, bem como a sua bagagem, tendo perdido já alguns voos.

Com “Táxi to the dark side” Alex Gibney demonstra que a maior parte dos presos que se encontram nas prisões de Abu Ghrabi (Iraque), Bagram (Afeganistão) e na base de Guantanamo (Cuba), têm sido, são e vão continuar a ser fortemente torturados, sem nunca serem ouvidos e sem qualquer forma de defesa judicial, não se sabendo se são terroristas ou ligados a qualquer tipo de terrorismo.

Estes homens são diariamente sujeitos a várias formas de tortura, sendo despidos e pendurados ao tecto pelas mãos durante várias horas, espancados, não podendo dormir e comer durante dias, entre outras situações que lhes causam stress físico e psicológico. Os que não resistem acabam por morrer, sendo as suas mortes reconhecidas tecnicamente pelos médicos do exército americano como homicídios. Bush designa estas formas de tortura por “técnicas de interrogação de suspeitos”. A Convenção de Genebra não é respeitada e o argumento que Bush e a sua Administração dão para justificar tal facto é que sendo estes presos terroristas (o que não se sabe se todos o são, pois não têm forma de se defender), não podem ser tratados segundo os direitos das pessoas que não o são. Não podendo alterar a Constituição, interpretam-na favorecendo os seus interesses, promovendo o terrorismo e a continuação de uma guerra que não terá fim se o sistema não mudar. 

Os militares com baixa patente, que foram obrigados a utilizar as tais “técnicas de interrogação de suspeitos”, sendo-lhes incutido que os presos são terroristas, cumprindo as ordens dos seus superiores hierárquicos, são julgados e penalizados para o resto da vida, sentindo-se usados. Por outro lado, os seus superiores hierárquicos ficam impunes, continuando a cumprir as ordens da Administração Bush.

Não consigo ficar indiferente a tudo isto! Só me resta agradecer à organização do “doclisboa” que faz com que tenhamos acesso ao trabalho desenvolvido por pessoas que também não são capazes de ficar indiferentes ao que se anda a passar no mundo. Será que estamos mesmo no séc. XXI?